quinta-feira, 13 de maio de 2010

Dom Quixote em Cordel na Bienal do Livro


Durante a Bienal do Livro de Minas Gerais [14 a 23 de maio], o estande da Crisálida Editora fará a exposição e venda de folhetos de cordel.
Na compra de qualquer livro da Crisálida, o leitor receberá como brinde o exclusivo folheto: Dom Quixote em cordel, de Olegário Alfredo.
Trata-se de adaptação inédita, que em breve será publicada em formato de livro, com ilustrações clássicas adaptadas por Milton Fernandes.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Bienal do Livro de Minas Gerais

A Crisálida estará presente na Bienal do Livro de Minas Gerais, de 14 a 23 de maio, no Expominas.
Nosso estande é o P 18, no pavilhão 3, em parceria com a Argvmentvm Editora.

domingo, 9 de maio de 2010

sábado, 24 de abril de 2010

Escrever com a câmera: Godard

Como boa parte da produção sobre artes em geral (e cinema em particular) publicada no Brasil, Escrever com a câmera – A literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard, de Mário Alves Coutinho, é subproduto de pesquisa realizada no âmbito de uma pós-graduação. O livro, em linhas gerais, investiga a criação de Godard a partir de um conjunto de conceitos aparentados à literatura – ao contrário do que são as abordagens tradicionais sobre a obra de um cineasta, que buscam aproximar-se dela a partir da biografia ou de princípios do próprio cinema. No processo, confronta vícios e virtudes que costumam atravessar as obras que resultam de pesquisa acadêmica, abrindo assim, aos leitores, um duplo caminho para novas investigações: um, ligado ao conteúdo, pelo olhar singular com que observa a obra de Godard; outro, que poderíamos associar à forma, nos fala de como oferecer conteúdos complexos sem transformá-los em algo hermético. Dissertações, teses e suas defesas não constituem apenas relatórios de uma pesquisa ou debates sobre ela. Têm, também, o sentido de um rito de passagem, representam, simbolicamente, uma mudança significativa na condição existencial do pós-graduando – através delas, ele deixa de ser um leigo e é admitido formalmente em confrarias a que pretende ascender, a dos professores, a dos cientistas, à própria academia em si. Este dado (ao qual, no Brasil, acrescenta-se o status legal dos títulos como atestados de capacitação profissional, sem os quais certas ocupações não podem ser exercidas) frequentemente transforma os relatórios em textos que parecem dirigidos apenas às bancas que os julgarão. Em seu livro, Mário Alves Coutinho escapa sabiamente deste vício. Parte desse sucesso deve-se a sua intimidade com a linguagem em geral, e a escrita em particular. O estilo de Escrever com a câmera é resultado de décadas do trabalho de Mário escrevendo e publicando crítica de cinema em veículos como este, o Estado de Minas, participando de debates públicos ao vivo ou pela televisão, traduzindo e por aí vai. Não é um relatório de pesquisa, mostra-se, antes, como uma boa conversa com o leitor sobre um tema pelo qual o autor é apaixonado. Esse jeito de conversa mostra-se essencial para que seja alcançado o efeito mencionado acima: a possibilidade de clareza na apresentação de um tema usualmente percebido, tanto pelos leigos quanto pela academia, como sendo complexo. Em geral, estamos acostumados a discursos herméticos sobre os tais temas mais complexos. Quem já leu Barthes ou Delleuze sabe, exatamente, do que se fala aqui (e isso vale tanto para os que amam quanto para os que detestam estes autores): multiplicam-se os neologismos, expandem-se as interpretações, proliferam os jogos de palavras. Em Escrever com a câmera, Mário Alves Coutinho rema contra essa corrente. A estrutura de sua tese é até convencional: apresentação dos pressupostos gerais de sua pesquisa; exposição das situações específicas que considera essenciais à compreensão de suas ideias (o primeiro capítulo do livro, em que o ambiente onde Godard cresceu é mostrado através de textos sobre pessoas e eventos que o teriam influenciado, é magistral na percepção de como teriam surgido certos traços da obra e da personalidade do cineasta); estudo de casos que confirmam a hipótese (filmes do diretor, em confronto com certos processos de aproximação ou tensão com a literatura); conclusão. A essa estrutura se incorpora, em certo sentido, a explicação dos neologismos, o debate sobre os limites das interpretações, a busca da compreensão dos jogos de palavras – ou seja, estamos não apenas diante de um discurso sobre Godard, cinema ou literatura, mas diante de um discurso sobre discursos a respeito destes temas. Outro elemento de Escrever com a câmera que facilita a comunicação com o público é o fato de ser uma obra nitidamente autoral. Começa com a escolha do tema – toda a geração de críticos a que Mário Alves Coutinho pertence é ou foi apaixonada por Godard e a Nouvelle Vague. Continua com a própria seleção de “casos” a serem estudados – são filmes “clássicos” (mesmo se soa paradoxal chamar de clássico um filme de Godard), com que o autor conviveu na época da formação de seu pensamento sobre cinema, mesmo se obras mais recentes do cineasta poderiam funcionar com a mesma eficiência. E termina com a maneira como se apropria das teorias e jargões que incorpora da literatura: frequentemente, relatos análogos, na ânsia de agradar os examinadores, parecem deixar de lado seus objetos de pesquisa para se transformarem em demonstrações de como os autores lidam bem com os conceitos de seu campo de conhecimento. Em Escrever com a câmera, Godard é sempre o centro de nossa atenção, e tudo o mais, conceitos de cinema e literatura, ou métodos de abordagem possíveis, parece estar a serviço de nossa aproximação com sua obra. A paixão mencionada acima é sempre uma armadilha. Como boa parte das obras sobre arte e filosofia, Escrever com a câmera parte do pressuposto de que o valor de seu objeto de estudo é incontestável. Sobre ele não cabe juízo crítico, aplicável apenas a partir dele. Quem procurar no livro um olhar que guarde certo estranhamento de Jean-Luc Godard perderá seu tempo. As possíveis consequências daquela paixão, contudo, são amenizadas pela própria abordagem. Por mais que seja um leitor obsessivo ou um tradutor, a teoria literária não é espaço e nem origem do pensamento cotidiano de Mário Alves Coutinho. Constitui, para ele, território novo – ao contrário do que ocorre com a teoria do cinema. Se Godard, em si, é objeto de sua paixão (e, portanto, inseparável de sua visão de mundo), as ferramentas que usa na investigação não o são. Em relação a elas, ele é capaz de manter aquele estranhamento. Sua paixão, aqui, é pelo que está descobrindo, e não pelo que já conhece. Consequência disso é a própria determinação de uma hierarquia entre literatura e cinema. O subtítulo de Escrever com a câmera é A literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard, e não “o cinema literário”. Insinua uma precedência – a possibilidade de pensarmos o cinema ou pelo menos certo cinema (o de Godard e alguns outros cineastas) como gênero literário. O que, radicalizando o raciocínio, nos levaria a questionar até mesmo a autonomia do cinema frente às outras artes (e Escrever com a câmera é extremamente eficiente em investigar citações que remetem a essa possibilidade). Se isso pode incomodar os puristas do “específico fílmico”, pode, também, abrir boas portas a novas pesquisas, e na direção oposta: a partir da maneira como Mário Alves Coutinho investiga uma “literatura cinematográfica”, e usando os mesmos instrumentos teóricos, poderíamos, por exemplo, correr atrás do “cinema literário” de autores como Honoré de Balzac ou Paul Valéry (só para mencionar duas paixões literárias de Godard). O melhor numa obra não é necessariamente o que ela diz, mas as possibilidades que abre para novas pesquisas e criações.
Marcello Castilho Avellar, Estado de Minas, 24/04/2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Escrever com a Câmera: Godard

Acaba de ser publicado pela Crisálida o livro de Mário Alves Coutinho sobre Jean-Luc Godard. Primeiro livro escrito por um brasileiro sobre o cineasta francês, o ensaio pode servir como um guia seus filmes. A análise detalhada de 3 filmes (Alphaville, Pierrot le fou e O desprezo), além da referência a vários outros, fornece uma chave de interpretação ou de apreciação de uma das obras mais influentes do cinema moderno.
Tudo o que você queria saber sobre Godard e não podia perguntar a Blanchot: http://migre.me/oFuP

quarta-feira, 3 de março de 2010

Dia 8 de março - Dia Internacional da Mulher


“O amor, disse alguem, é uma jornada, cujo ponto de partida é o sentimento, e cujo termo inevitavel a sensação. Se isto é verdade, o que ha a fazer, é embelecer a estrada e chegar o mais tarde possivel ao fim. Ora, quem melhor que o homem de espirito sabe parolar á beira do caminho, parar e colher flôres, sentar-se às sombras frescas, recitar aventuras e procurar desvios e delongas? Um caracol de cabellos mal arranjado, um comprimento menos apressado que de costume, um som de voz discordante, uma palavra mal escolhida, tudo lhe é pretexto para demorar os passos e prolongar os prazeres de viagem. Mas quantas mulheres apreciam esses castos manejos, e comprehendem o encanto dessas paradas á borda de uma veia limpida que reflete o céo? Ellas querem o amor, qualquer que seja a sua natureza, e o que tolo lhes offerece é-lhes bastante, por mais insipido que seja.”

[de Queda que as mulheres têm para os tolos, tradução de Machado de Assis, em grafia conforme o original – Editora Crisálida]

segunda-feira, 1 de março de 2010

Reedições de Machado de Assis




Duas obras de Machado de Assis foram reeditadas pela editora Crisálida. A coletânea de prosa e verso Queda que as mulheres têm pelos tolos e outros textos e o emblemático livro de poemas Chrysalidas, com a grafia da edição original. Os dois livros são resenhados nesta edição pelo crítico literário Fernando Py.

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Temos em mãos duas reedições de Machado de Assis: Chrysalidas (Belo Horizonte: Livraria Crisálida Ltda., 2000, 120p.) e Queda que as mulheres têm para os tolos e outros textos (Belo Horizonte: Livraria Crisálida Ltda., 2003, 88p.; pesquisa e organização de Oséias Silas Ferraz). Convém dizer algumas palavras sobre ambos.
A editora reproduz a grafia da edição original de Chrysalidas (1864), primeira coletânea de poesia do nosso Machado; o organizador informa que corrigiu apenas os evidentes erros tipográficos, mantendo rigorosamente o texto da edição princeps. Assim, o leitor terá condições de ler o volume tal como apareceu em vida do autor, pois a presente edição é a única reedição integral de
Chrysalidas que já se fez, sem os cortes e alterações de palavras e versos que Machado operou quando da publicação das Poesias completas (1901).
Ao escrever as 29 peças de
Chrysalidas, Machado de Assis ainda estava preso à poesia romântica; porém seu romantismo se afastava bastante de alguns postulados da escola, pois o poeta já manifestava a tendência de aperfeiçoar a métrica, ou seja, colocava-se numa posição um tanto precursora do nosso Parnasianismo. Utilizando de preferência o verso alexandrino, antecipava uma das constantes dos futuros parnasianos; seu cuidado com a métrica e o comedimento com a expressão que atinge por vezes a elipse, em "Ocidentais" fizeram-no muito respeitado entre os jovens que, desde os anos 1870, buscavam maior rigor tanto na forma como na maneira de expressar-se.
Contudo, Machado era ainda romântico, principalmente no que diz respeito ao sentimento de evasão, tão comum no Romantismo. Poemas como “Visio”, “Stela” e “Horas vivas” são exemplos de fuga para o sonho, ao passo que em “Musa consolatrix” a própria poesia serve-lhe de fuga. De todo modo, a poesia de Machado de Assis, ainda em seus começos, já mostrava uma certa insatisfação diante da realidade, o que só fez acentuar-se com o tempo.
Queda que as mulheres têm para os tolos e outros textos é uma coletânea de prosa variada, findando com o mais perfeito soneto que Machado já escreveu: “A Carolina”, em memória da esposa, falecida em 1904. Os demais textos são artigos de crítica, ensaios e um conto (“Teoria do medalhão”, p. 69). Observe-se que esta edição também respeita a ortografia da época empregada por Machado.
Ao publicar em volume Queda que as mulheres têm para os tolos (1861), o editor deu-o como “tradução do Sr. Machado de Assis”. O fato levantou dúvidas e durante muito tempo houve quem julgasse que o texto era do próprio Machado. Somente no ensaio Machado de Assis traducteur (edição mimeo, s/d., 1970?), o pesquisador francês Jean-Michel Massa consegue provar que a obra é de fato uma tradução de "De l'amour des femmes pour les sots", texto anônimo publicado em 1859 em Liège e em Paris, atribuído a um certo Victor Hénaux. Um dos motivos do engano da crítica sobretudo de Lúcia-Miguel Pereira foi que, segundo ela, a Queda já mostrava, em esboço, a “Teoria do medalhão”, um dos contos mais característicos da última fase de Machado. Contudo, sabemos hoje, aquilo era unicamente uma questão de afinidade...
As peças ensaísticas aqui reunidas estão entre as mais importantes de Machado: “Ideal do crítico”, de 1865, é um pequeno ensaio que aborda as condições necessárias para que se exerça crítica; por sua vez, em “Literatura brasileira Instinto de nacionalidade” (1873), temos um Machado de Assis que buscava examinar em que medida as nossas letras dispunham de um caráter especificamente nacional; ambos os textos mostravam que Machado tinha plena consciência não só do papel do crítico, mas também de que uma das exigências para a nossa literatura seria o que denominava “instinto de nacionalidade”, que a poderia distinguir das demais literaturas do mundo. Na crítica, Machado pode não ter deixado uma obra tão importante como a de sua ficção, mas é evidente que soube situar, desde a juventude, a função primordial do crítico literário.
“Elogio da vaidade” é uma “fantasia”, escrito que lembra Erasmo a partir mesmo do título. Trata-se de uma proposopopéia em que a Vaidade assume a palavra e faz o próprio elogio, chegando por fim à conclusão, aparentemente paradoxal, de que a maior vaidade é a vaidade da modéstia.
De certo modo, isto nos leva ao conto “Teoria do medalhão”: um pai, na noite do aniversário do filho, passa a instruí-lo na maneira de comportar-se em sociedade, ensinando-lhe hábitos, formas de se destacar, “como instrumento de luta para a conquista do prestígio” (
Augusto Meyer. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1958, p. 67.). E remata de modo altamente revelador, dizendo que aquela conversa “vale o Príncipe de Macchiavelli” (p.80). É uma peça bem própria de Machado, e está intimamente ligada não apenas ao conto “O espelho”, como quer Augusto Meyer (1958), mas a diversos outros, tornando-se, desse modo, um texto emblemático.
A edição da Crisálida é meritória por mais de uma razão. E não será descabido afirmar que preenche uma lacuna, pelo simples fato de colocar novamente em circulação alguns textos mal conhecidos do maior escritor brasileiro de todos os tempos.

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Fernando Py
é poeta, tradutor e crítico literário.
Texto publicado em: http://migre.me/lPpD
[Texto publicado na versão impressa de Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte, nº 110, maio de 2005, pág. 10]